O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) participou do 3º Fórum Brasil das Águas, realizado em São Luís, e levou ao debate os desafios enfrentados pelas cidades brasileiras diante da intensificação de eventos climáticos extremos.
Durante o evento, o diretor-geral do Igam, Marcelo da Fonseca, ministrou palestra no painel “Segurança Hídrica em cenários de Mudanças Climáticas”, com o tema “Eventos Hídricos Extremos: o Desafio do Controle de Cheias e Alagamentos sob o Novo Normal Climático”. Na apresentação, ele destacou a necessidade de repensar o planejamento urbano e as estratégias de enfrentamento a enchentes e alagamentos.
Segundo o diretor, os modelos tradicionais de infraestrutura urbana já não conseguem responder adequadamente ao aumento da intensidade das chuvas. Ele explicou que eventos extremos que antes eram estimados para ocorrer a cada cem anos têm sido registrados em intervalos muito menores.
Outro ponto abordado foi a intensificação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), fenômeno responsável por concentrar grandes volumes de chuva em curtos períodos e elevar os riscos de enchentes em áreas urbanas.
Durante a palestra, Marcelo da Fonseca também destacou que a convivência com esses novos fenômenos climáticos extremos enfrenta um “triângulo da vulnerabilidade”, formado pela fragmentação institucional, dificuldades técnicas relacionadas ao relevo e à impermeabilização do solo, além de um modelo de financiamento ainda concentrado em obras tradicionais de engenharia cinza, como canalizações e retificações de cursos d’água.
“A segurança hídrica não pode mais ser dissociada da adaptação climática urbana”, afirmou.
Como exemplo dos impactos recentes, o diretor citou o caso de Ubá, na Zona da Mata mineira, que enfrentou, em janeiro de 2026, um evento extremo de precipitação. Em apenas três horas, o município registrou 170 milímetros de chuva, provocando oito mortes, deixando mais de 1.100 famílias desalojadas e causando prejuízos milionários ao polo moveleiro local.
De acordo com a análise técnica apresentada, fatores como a saturação prévia do solo, a alta impermeabilização urbana e o curto tempo de resposta da bacia hidrográfica agravaram os impactos das enchentes.
Diante desse cenário, o Igam defende uma mudança de paradigma na engenharia e no planejamento urbano. A proposta é substituir o modelo focado apenas no escoamento rápido da água por estratégias voltadas à convivência com eventos climáticos extremos.
Entre as medidas defendidas pelo instituto estão investimentos em infraestrutura verde, modernização da modelagem hidrológica e do monitoramento climático, fortalecimento da governança integrada, ampliação da análise de risco hidrológico, diversificação da matriz hídrica e incentivo à inovação tecnológica e capacitação técnica.
Para Marcelo da Fonseca, o episódio registrado em Ubá reforça a urgência de tornar as cidades mais resilientes frente às mudanças climáticas.
“Devemos transformar a dor das perdas em Ubá em um modelo de resiliência que sirva de referência. O futuro depende da nossa capacidade de projetar sistemas que não apenas resistam às águas, mas que saibam fluir com elas”, concluiu.
Joana Nascimento
Ascom/Sisema

