O Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema) promoveu, nessa quinta-feira (30/4), mais uma edição do Sisema ComCiência, trazendo ao centro do debate o tema “Hotspots de emissão: por que o sertão está sob risco?”. A palestra foi conduzida por Libério Junio da Silva, doutor em Geociências pela Universidade Federal Fluminense e analista ambiental da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad). A transmissão foi realizada ao vivo pelo canal Meio Ambiente Minas Gerais, no YouTube.
O estudo apresentado acende um alerta sobre a dinâmica do carbono no bioma Caatinga, indicando a existência de áreas com alta emissão de dióxido de carbono (CO₂), conhecidas como “hotspots”. Os dados revelam que, em determinados períodos e regiões, o bioma pode deixar de atuar como sumidouro de carbono — função essencial para o equilíbrio climático — e passar a emitir mais CO₂ do que absorve.
Com cerca de 844 mil quilômetros quadrados, a Caatinga é exclusivamente brasileira e caracteriza-se pelo clima semiárido, com longos períodos de estiagem e vegetação adaptada à escassez hídrica. No entanto, mudanças climáticas e pressões humanas têm ampliado sua vulnerabilidade.
De acordo com a pesquisa, o aumento da temperatura média, a intensificação da evapotranspiração e a redução da disponibilidade hídrica comprometem a capacidade das plantas de absorver carbono. Como consequência, há redução do crescimento vegetal, aumento da mortalidade de espécies e queda no sequestro de carbono.
Pressões humanas intensificam impactos
Além dos fatores climáticos, atividades antrópicas como o corte seletivo para lenha e carvão, o sobrepastoreio e práticas agrícolas inadequadas contribuem para a degradação ambiental. Esses processos reduzem a biomassa, expõem o solo e diminuem a matéria orgânica, favorecendo a liberação de carbono na atmosfera.
Durante a apresentação, Libério Junio da Silva destacou que o comportamento do bioma já apresenta sinais de mudança. “Nosso estudo mostra que a Caatinga, em determinados momentos e regiões, tem deixado de atuar como sumidouro de carbono para se tornar fonte de emissão de CO₂. Esse processo está relacionado tanto às mudanças climáticas quanto às pressões humanas. Identificamos, com dados de satélite, áreas mais vulneráveis, onde esses hotspots se concentram. É um sinal de alerta para a necessidade de fortalecer o monitoramento, a conservação e as ações de restauração”, frisou.
Embora represente cerca de 11% do desmatamento nacional, a Caatinga apresenta dinâmica distinta de outros biomas brasileiros, como Amazônia e Cerrado. Na região semiárida, as emissões estão mais associadas à degradação contínua e à variabilidade climática do que ao desmatamento em larga escala.
Áreas críticas e tendência recente
Entre 2015 e 2017, grande parte do bioma atuou como sumidouro de carbono. Já entre 2019 e 2020, houve aumento significativo das áreas com emissões positivas. Nos anos seguintes, observou-se uma recuperação parcial, especialmente na porção sul.
As regiões mais críticas incluem áreas de estepe-savana e formações pioneiras, mais sensíveis às variações climáticas e à pressão humana. O estudo também aponta indícios de instabilidade em formações florestais, o que pode comprometer a função da Caatinga como reguladora do clima.
Urgência de ações integradas
Diante desse cenário, os pesquisadores reforçam a necessidade de medidas integradas voltadas ao monitoramento contínuo, à conservação e à restauração ecológica. Essas ações são fundamentais para a preservação da biodiversidade e para a mitigação das mudanças climáticas.
O estudo também está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 13 (Ação contra a mudança global do clima) e o ODS 15 (Vida terrestre), contribuindo para ampliar o entendimento sobre o papel das regiões semiáridas no equilíbrio climático global.
Sisema ComCiência
Criado em 2020, o Sisema ComCiência é uma iniciativa do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, voltada à divulgação de pesquisas e debates ambientais em Minas Gerais. O programa é mediado por Alexandre Magrineli, do Instituto Mineiro de Gestão das Águas, e promove a interação entre especialistas e o público.
Joana Nascimento
Ascom/Sisema
